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O que é a escola.

Por Nelson Marinelli Filho

A origem da escola é óbvia e confunde-se com a evolução humana, quando em nosso passado como coletores e caçadores alguns do grupo, provavelmente os mais velhos, eram destacados para cuidar dos mais novos enquanto os mais aptos saiam para buscar alimento. Esses cuidadores gradualmente foram desenvolvendo a capacidade de contar histórias para prender a atenção dos pequenos. Nós somos o fim dessa linha de evolução.

Nós somos o Homo Sapiens, ou o homem que sabe!

Mas sabe como? Por meio de sua capacidade de contar histórias, ou mais precisamente, por nossa capacidade de transmitir oralmente o conhecimento acumulado. É isso que nos destacou perante os nossos outros primos, os Neandertais.

Assim, aprendemos a cuidar de nossos pequenos contando histórias, tanto é que utilizando novamente o Google e digitando os termos de busca “mother” e “children” (mãe e cuidar) a imagem que mais aparece é de uma mãe, cercada por seus filhos, e de alguma forma contando uma história.

Figura 2 – Busca Google Imagem: Mother Children

Por outro lado, se você digitar “Depression” a primeira imagem que surge é uma mãe, cercada por seus filhos, sem palavras. Uma imagem clássica associada à Grande Depressão de 1929. (Figura 3)

Figura 3: Dorethea Lange’s “Migrant Mother” Destitute pea pickers in California, centering on Florence Owens Thompson, Age 32, A mother of seven children, Nipomo, California, March 1936.

 

Por meio desta reflexão, fica fácil de entender de onde veio o arranjo fundamental da escola, com as crianças alinhadas à volta de um professor, recebendo algum tipo de conteúdo.

 

Mas e a escola, como conhecemos hoje, como surgiu?

A escola como a instituição que conhecemos atualmente, processual, disciplinar e claramente orientada a marcos temporais anuais, surgiu na transição de uma sociedade rural para a urbana atual, no início do ciclo fabril da Revolução Industrial, ou o 2º ciclo. As raízes dessa transição podem ser claramente observadas no calendário escolar norte-americano, onde as férias de verão coincidem claramente com a colheita e a parada de primavera (“spring break”) com a urgente janela de plantio.

Esta forma, ou modelo escolar, teve como marco temporal o Public Schools Act 1868 que, mesmo de forma inicial, começou a romper a exclusividade da Coroa Britânica e de sua igreja sobre a gestão escolar e tornando-as independentes na gestão e na escolha de seu currículo. Isso não aconteceu por acaso, mas para atender a demanda por operários capazes de operar sistemas mais complexos que começaram a surgir nos parques industriais ingleses.

Mais do que ninguém, os Estados Unidos da América souberam como se apropriar deste modelo educacional, seguido pela Alemanha.

Talvez esta capacidade única seja uma das explicações do papel fundamental destas três nações ao longo de todo o século XX e XXI, sempre orientada à expansão de sua força industrial. Sempre.

Observe a linha, ou a conexão, entre o filme “The Modern Times” de Charles Chaplin e o vídeo clip da música tema do álbum The Wall da banda inglesa Pink Floyd, especificamente na parte 2 da Opera Rock Another Brick in the Wall.

“We don’t need no education

We dont need no thought control

No dark sarcasm in the classroom

Teachers leave them kids alone

Hey! Teachers! Leave them kids alone!

All in all it’s just another brick in the wall

All in all you’re just another brick in the wall”

 

“Nós não precisamos de nenhuma educação

Nós não precisamos de controle de pensamento

De nenhum sarcasmo negro na sala de aula

Professores, deixem as crianças em paz

Ei! Professores! Deixem as crianças em paz!

No final, apenas outro tijolo no muro

No final, você é apenas outro tijolo no muro”

 

Observe com cuidado estes dois momentos. Vá ao Google e pesquise rapidamente sobre o mundo em 1936. Lembre-se de nossa imagem anterior da figura 3, não é por acaso o seu alinhamento, em um momento em que o homem têm o seu significado reduzido a quase zero e sendo visto como apenas um acessório, recurso, das linhas de produção. Uma clara consolidação da desvalorização da vida humana, vinda da 1ª Guerra Mundial e que, claramente, nos levou aos horrores da 2ª Guerra Mundial.

Agora, viaje 45 anos à frente, para 1979, quando “Another brick in the wall: part 2” foi lançada. Dez anos depois do início da sociedade da Informação, quando os Hippies de Woodstock já estavam casados, com filhos e ocupando postos de destaque nas organizações norte-americanas. A alguns momentos da entrada do computador pessoal e a internet em nossas casas. O que este momento representa?

Representa o ponto de virada onde desde 1540, com o início da Era da informação, começamos a desenvolver uma visão unidimensional do conhecimento, procurando classificar e tecnificar tudo o que aprendíamos em árvores temáticas de disciplinas e passamos a ter uma visão mais orgânica do todo, tem tanta preocupação em encontrarmos uma relação de causa e efeito para tudo. Uma visão característica da sociedade da informação que, neste momento, busca a sua maturidade ao permear todo o nosso estilo de vida.

Ou seja, no momento em que começamos a fazer a transição entre a busca pela expansão da produção para o propósito, da disciplinaridade para multidisciplinaridade.

Muito bem, as oitocentas palavras anteriores, imagens desta pequena introdução nos permitem começar a construir uma resposta a nossa pergunta inicial:

“– O que é escola?”.

A escola é o arranjo social, colaborativo, que nos permitiu chegar até o ponto em que estamos como civilização.

Com muitos erros, naturais em função de nossa juventude, mas também com muitas e incríveis realizações.

No entanto, em função de uma percepção de valor distorcida, a escola não é percebida desta forma por alunos, pais, professores e seus gestores de qualquer nível. A escola e tudo o que o que ela representa: educação, aprendizagem e desenvolvimento são vistos como uma obrigação de valor questionável e, sobretudo, um local desagradável e até de sofrimento.

O bullyng e os ataques recentes à nossas escolas são um sintoma inquestionável dessa crise que afeta um elemento tão importante de nossas vidas e de estruturação de nossa sociedade.

Onde está a solução?

Como parar esse ciclo constante de desvalorização da escola?

Essas são as nossas duas grandes questões e queremos trabalhar a partir de nossa definição de escola, repetindo:

“A escola é o nosso grande arranjo social, que nos permite passar o conhecimento e experiências acumuladas pelas gerações anteriores, de forma eficiente e eficaz.”.

 

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